Em ritmo de copa do mundo

Para mostrar seu suporte à Copa do Munda da África, a Routledge, em parceria com outros editores, selecionou 90 artigos relacionados a futebol e à Copa do mundo da África do Sul nas seguintes áreas: cultura, sociedade e mídia, história, economia, política, ciência e nutrição.  O acesso aos artigos é gratuito e estará disponível até 31 de julho de 2010.  Para ter acesso aos artigos clique aqui (textos em inglês).

Confira o resumo traduzido de dois artigos relacionados à biomecânica:

Journal of Sports Sciences, Volume 26, Issue 2 January 2008 , pages 113 – 122

Elite football on artificial turf versus natural grass: Movement patterns, technical standards, and player impressions (Futebol de elite em gramado artificial versus gramado natural: padrão de movimento, técnica e impressão dos jogadores)

Helena Andersson; Bjorn Ekblom; Peter Krustrup

O objetivo do presente estudo foi examinar o padrão de movimento, habilidade com a bola, e a impressão de jogadores de futebol de elite da Suécia durente competições em gramado artificial e gramado natural. Foram realizadas análises de movimento (36 observações) e análises técnicas (16 times) e 72 homens e 21 mulheres jogadores de futebol responderam a um questionário. Nenhuma diferença foi encontrada entre o gramado artificial e o natural em relação à distância total percorrida (mean 10,19 km, s = 0,19 vs. 10,33 km, s = 0,23), corrida de alta intensidade (1,86 km, s = 0,10 vs. 1,87 km, s = 0,14), número de sprints (21, s = 1 vs. 22, s = 2), standing tackles (10, s = 1 vs. 11, s = 1) ou  cabeçadas por jogo (8, s = 1 vs. 8, s = 1), entretanto foram realizados menos carrinhos (P < 0,05) no gramado artificial que no gramado natural (2,1, s = 0,5 vs. 4,3, s = 0,6). Foram realizados menos passes curtos (218, s = 14 vs. 167, s = 12) e menos passes no meio de campo (148, s = 11 vs. 107, s = 8) (both P < 0.05) no gramado artificial que no gramado natural. Em uma escala de 0 a 10, onde 0 = “melhor que”, 5 = “equivalente”, e 10 = “pior que”, os jogadores do sexo masculino reportaram uma impressão geral negativa (8,3, s = 0.2), controle de bola mais difícil (7,3, s = 0.3), e maior esforço físico (7,2, s = 0.2) no gramado artificial que no gramado natural. Concluindo, as atividades de corrida e técnicas foram similar durante os jogos em gramado artificial e gramado natural. Entretanto, menos carrinhos e mais passes curtos foram realizados durante os jogos em gramado artificial. A observação da mudança no estilo de jogo poderia explicar parcialmente a impressão negativa de jogadores do sexo masculino sobre o gramado artificial.

Footwear Science, Volume 2, Issue 1 January 2010 , pages 3 – 11

The influence of soccer shoe design on playing performance: a series of biomechanical studies (Influência do design da chuteira na performance do jogador: uma série de estudos biomecânicos)

Ewald M. Hennig; Thorsten Sterzing

Apesar da vasta literatura sobre tênis para corrida, publicações sobre chuteiras são escassas. Este trabalho traz um resumo do estado da arte sobre esse tema e discute as possibilidades do design das chuteiras, tendo como base pesquisas na área de biomecânica. Análises de jogos nos últimos anos demonstram que o futebol tornou-se mais rápido e mais potente que antigamente. Um calçado confortável, fornecendo alto grau de tração e boa estabilidade para acelerações rápidas, paradas e mudanças de direção é o que mais os jogadores esperam. A partir de questionários e listas sobre as propriedades desejadas em uma chuteira, a questão “proteção contra lesões” recebeu baixa prioridade dentre os jogadores, tanto do sexo feminino quanto do sexo masculino. A partir da lista de prioridades dos jogadores, diversos estudos biomecânicos foram realizados para avaliar as possíveis influências da chuteira na performance. Foi encontrado que o design da chuteira pode ter grande influência no desempenho de sprints, na acurácia de chutes, e na velocidade do chute.  O desafio futuro para o design de chuteiras não será apenas uma combinação dessas propriedades relacionadas à performance mas também deve incluir a prevenção de lesões.

O pulo do gato

Você já deve ter ouvido alguém dizer que um gato sempre cai de pé sobre suas quatro patas. Mas por que os gatos se machucam mais quando caem de uma altura menor? Cientistas fizeram uma análise do movimento do gato para tentar responder essa pergunta, como pode ser visto no vídeo abaixo. Como o vídeo está em inglês e não tem legendas, abaixo está disponível uma tradução.

As nove vidas do gato

Os ancestrais dos gatos provavelmente caçavam no chão e sobre as árvores. Para sobreviver eles precisavam de uma enorme habilidade e notável equilíbrio, uma característica que permanece nos gatos até hoje. Cientistas tentam entender o motivo dos gatos manterem a reputação de caírem sempre sobre as quatro patas. Um vídeo em câmera lenta revela que os gatos se movimentam em uma ordem precisa. Primeiro o quadril roda baseado nas informações transmitidas pelos olhos e pelo ouvido interno. Em seguida a coluna gira alinhando o corpo. Ao mesmo tempo o gato arqueia a coluna para reduzir a força de impacto.

Apesar de sua agilidade, os gatos enfrentam perigos particulares às cidades dos dias atuais. A vários metros do chão, o gato que vive em apartamento é tão atraído pelo movimento de fora como qualquer outro gato. Então muitos gatos acabam caindo pela janela, fenômeno chamado de síndrome do arranha-céu. No Centro Médico Animal de Nova Iorque veterinários ficavam perplexos quando percebiam que vítimas de quedas de alturas maiores tinham lesões menos graves que aquelas que caíam de uma altura menor.

“(veterinário) Há muito tempo vínhamos sendo confundidos pela síndrome do arranha-céu, nome que damos para gatos que caem de janelas. Existiam evidências clínicas que gatos que caíam de andares mais baixos se machucavam muito mais que gatos que caíam de alturas maiores. Isso não parecia lógico. Então realizamos um estudo examinando radiografias de gatos que tinham caído de janelas, o que confirmou que nossa impressão clínica estava correta. Parece que gatos que caem de andares mais altos tem tempo suficiente para atingir uma queda livre como um pára-quedista e relaxar. Ter um trauma enquanto está relaxado pode evitar lesões enquanto ter um trauma enquanto está rígido pode maximizar a lesão.”

O gato pode não ter nove vidas, mas sua habilidade sobrenatural de navegar pelo ar é certamente a responsável pelo mito.

Análise de movimento: erros em evidência

Um artigo publicado na última quarta-feira dia 9 de junho no ABC News trouxe a tona na lista de discussão internacional de biomecânica questões sobre os erros de medida em análise de movimento (para ver o artigo original clique aqui). Cirurgiões ortopedistas disseram que crianças com necessidades especiais em New South Wales podem ter sido colocadas em risco devido a erros de medições em análises de marcha realizadas pelo Serviço de Análise do Movimento da Universidade de New South Wales.

Motion and Gait Analysis Laboratory, Lucile Packard Children’s Hospital at Stanford, USA

Apesar de ser realizada em poucos lugares do Brasil, como na AACD, no Hospital Israelita Albert Einstein e no Instituto Vita em São Paulo, a análise de marcha é comumente realizada nos Estados Unidos para fornecer dados sobre o padrão de movimento de pessoas com deficiências motoras e neurológicas a fisioterapeutas e médicos a fim de guiá-los na decisão do  melhor tratamento ou procedimento curúrgico a ser realizado para correção da locomoção. Veja a tradução de um trecho do artigo:

“Em uma vistoria realizada no ano passado, foram encontrados erros nas medições realizadas na Universidade de New South Wales. Acredita-se que, enquanto médicos reclamam o problema, os pais e as próprias crianças nem mesmo foram avisados.

Para crianças com desordens musculoesqueléticas, como na paralisia cerebral, a habilidade em se locomover faz uma enorme diferença na sua qualidade de vida.

É aí que entram os laboratórios de análise de marcha – eles medem como uma criança anda, predizendo qual tratamento fisioterápico ou cirúrgico é necessário para manter a locomoção da criança.

O Serviço de Análise de Movimento da Universidade de New South Wales prestava serviço para alguns hospitais da região realizando análises de marcha. Entretanto, foram levantadas dúvidas sobre a confiabilidade dos dados mensurados e sobre a ética relacionada a seu uso.

A vistoria realizada no ano passado encontrou erros técnicos na aquisição e manipulação dos dados. Tais erros não afetaram as decisões clínicas, mas um médico afirma que representam um perigo em potencial.

Também foram apontados outros problemas. Por exemplo, foi pedido aos pais que assinassem um termo de consentimento permitindo o uso dos dados coletados em rpojetos de pesquisa da universidade. O formulário não mencionou que os dados seriam usados por alunos de mestrado e não apresentava aos pais a opção de não autorizar o uso dos dados para fins acadêmicos.”

Deixando de lado o jornalismo sensacionalista, temos que assumir que foi levantado um problema comum em análise biomecânica, em especial no Brasil: erros nunca são reportados! Com o avanço da tecnologia, fisioterapeutas, professores de educação física e médicos se deparam com inúmeras possibilidades de análise de movimento e força, a grande maioria completamente automatizada, bastando conectar o aparelho e apertar o enter para que apareça o relatório completo dos dados adquiridos. E, devido às condições do ambiente ou mesmo financeiras, protocolos ainda são alterados para facilitar a coleta dos dados e permitir que mais pessoas seja analisadas. Grave engano! Se uma pessoa não sabe como as coisas funcionam, como os dados são obtidos ou calculados, por que existem determinados protocolos, como vai poder confiar nos resultados? Com que segurança vai utilizar esses dados para prescrever um exercício ou um tratamento? Erros existem e sempre existirão. Resta aos profissionais conhecerem esses erros e fazer o possível para reduzí-los. Conhecer e reportar os erros de medições é importante tanto na área clínica quanto na científica. Quando uma pesquisa é publicada significa que seus resultados e conclusões poderão ser aplicadas por outras pessoas. Fazer pesquisa não significa juntar um monte de dados de um monte de sujeitos e aplicar um teste estatístico. Requer muito planejamento para traçar objetivos relevantes, escolher o melhor delineamento e a metodologia mais adequada. A confiabilidade dos seus resultados alcançados pela sua pesquisa depende de como os dados foram coletados e manipulados!

Além do problema relacionado aos erros de medidas também existem os problemas éticos, como reportado no artigo da ABC News. Quando se avalia um paciente/cliente os dados pertemcem a ele e só poderão ser utilizados para fins acadêmicos, sejam relacionados a pesquisa sejam relacionados a ensino, caso ele permita de livre e espontânea vontade, devendo ser livre para negar ou retirar seu consentimento a qualquer momento.

Ficam aqui, portanto, duas dicas para quem se interessa pela análise biomecânica de movimentos, seja como analisador, como analisado ou como leitor/usuário dos resultados divulgados: preocupe-se com os aspectos éticos e com os erros de medida antes de confiar na seriedade dos resultados!!!